AS MENINAS DE LYGIA FAGUNDES TELLES - INVESTIDA FICCIONAL CONTRA O DOMÍNIO SÓCIO-POLÍTICO BRASILEIRO DOS ANOS 60 - 4
NEUZA MACHADO

Lygia Fagundes Telles soube grafar, em páginas criativas, esta questão das "máscaras sociais", mostrando o desejo de Ana Clara, por exemplo, de se tornar um ser presente na hipócrita sociedade brasileira dos anos de 1960, por intermédio do casamento com um homem rico, mesmo sendo asqueroso. Na verdade, todas as personagens da narrativa em questão denunciam a impossibilidade do ser humano mostrar seu rosto verdadeiro, mesmo nos dias atuais (o Presidente Lula, o Operário que governou brilhantemente o Brasil por oito anos consecutivos e a recém-eleita Presidente Dilma que o digam!), uma vez que o meio social impõe regras e preceitos, de acordo com o momento histórico vivenciado.
Assim, pelo ponto de vista ficcional do narrador principal de Lygia, que presencia a história instalado no plano interativo do cogito(2) da consciência questionadora, o ato de narrar ficcionalmente se fragmenta, revelando vários expositores ao mesmo tempo. Os discursos se intercalam e se misturam, confundindo o entendimento do leitor, habituado ele às narrativas tradicionais com princípio, meio e fim. Ali, na ímpar narrativa de Lygia Fagundes Telles, se instala um entrecruzar de pensamentos díspares. Pequenos e tumultuados acontecimentos do cotidiano possuem o poder de transformar o entrelaçamento das vozes narrativas no próprio símbolo do tumulto social da época, por intermédio dos enclaves discursivos, uma técnica ficcional oriunda do noveau roman francês. Neste sentido, o desconcerto existencial das personagens femininas, desconcerto captado nas linhas e entrelinhas do próprio texto, reflete um momento fragmentado, ou mesmo, a busca da própria identidade da mulher brasileira através das várias narradoras femininas. Assim, há a procura da auto-avaliação e do reconhecimento de um momento desajustado, por intermédio dos vários discursos que permeiam a narrativa. Neste sentido também não se pode falar apenas em literatura de autoria feminina, quando se descobre que os escritores masculinos da época sofreram os mesmos processos de procura e autoconhecimento.
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